Génios

Abraço agora a leitura transversal do livro de Harold Bloom com o mesmo titulo. E faço referência a este por conter as figuras de 100 génios da literatura mundial, servindo sempre de vademécum e onde se fala, entre outros portuguese, de Camões. Assim:

Pag. 574

Luis Vaz de Camões

Este receberá, plácido e brando,

No seu regaço os cantos que molhados,

Vem do naufrágio triste e miserando,

Dos procelosos baixos escapados,

Das fomes, dos perigos grandes,quando

Será o injusto mando executado

Naquele cuja lira sonorosa

Será mais afamada que ditosa

E continuando a citar

Os Lusíadas, a epopeia de Camões, o Homero ou o Virgílio português, Talvez seja o poema menos politicamente correto de todos os tempos, e o autor é claramente culpado de todos os pecados de início apontados nas universidades e que agora são deplorados pelos meios de comunicação:

orientalismo, racismo, sexismo, mercantilismo, imperialismo e todas as suas variações. No entanto Camões é um grande poeta épico, cuja força criativa anima  a tradição literária portuguesa que dele emana, …

… O sofrido Camões perdeu o pai num naufrágio em Goa, na India Portuguesa, perdeu o olho numa batalha em Ceuta. Poucos grandes poetas foram guerreiros, quaisquer que sejam as razões. Camões teve pouca aceitação durante a vida, mas desde então tem sido o poeta nacional – curioso destino para um aventureiro renascentista, singular e corajoso.

Na nossa nova Era de Terror, Camões parecerá um sectário provocador, pois sua visão de um mundo conquistado para o catolicismo português tem necessariamente os Muçulmanos como principais opositores. E, no entanto, Camões, embora o seu tema seja o heroísmo português, nunca desdenha dos custos humanos seja em que circunstancias for e as suas profundas ambiguidades refletem um génio tão compadecido como corajoso. A sua epopeia Heroica não é uma obra datada, mas sim relevante, infelizmente demasiado relevante, no momento em que avançamos nesta era de guerras religiosas (por mais que dissimulemos chamando-lhe outra coisa) … (sic)

Contudo , quando reflito sobre o poema, lembro-me do Canto V, 49-51, da figura do gigante Adamastor, que é uma invenção genial. Vasco da Gama descreve assim essa manifestação titânica:

Mas ia por diante o monstro horrendo

Dizendo nossos fados, quando, alçado,

Lhe disse eu: << Quem és tu? que esse estupendo

Corpo, certo, me tem maravilhado!>>

A boca e os olhos negros retorcendo

E dando um espantoso e grande brado

Me respondeu, com voz pesada e amara,

Como quem da pergunta lhe pesara:

<< Eu sou aquele oculto e grande cabo

A quem chamais vós outros Tormentório

Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,

Plínio, e quantos passaram fui notório.

Aqui toda a africana costa acabo

Neste meu nunca visto promontório

Que para o Polo Antártico se estende,

A quem vossa ousadia tanto ofende

<<Fui dos filhos aspérrimos da Terra

Qual Encélado, Egeu e o  Centimano;

Chamei-me Adamastor, e fui na guerra

Contra o que vibra os raios de Vulcano,

Não pusesse serra sobre serra,

Mas, conquistando as ondas do Oceano,

Fui capitão do mar, por onde andava

A armada de Neptuno, que eu buscava.

O Adamastor, embora temível, é uma figura de um pathos erótico considerável: ele ama desesperadamente Tétis, é enganado por ela e sofre uma metamorfose ovidiana que o deixa convertido no cabo das Tormentas. … Camões, um ironista empedernido e militar, atribui a Vasco da Gama o relato da história, e é o herói que no Canto IX irá desfrutar de Tétis nesse soberbo paraíso erótico, a Ilha dos Amores. Num poema épico nacional mais português que católico romano … o audacioso Camões tira do Alcorão a visão da felicidade sexual que espera os guerreiros do islamismo no Paraíso. Mas, o irónico Camões faz melhor que Maomé e permite que  Vasco da Gama e seus heroicos marinheiros experimentem os seus orgasmos imortais com as Ninfas sem o inconveniente de morrer antes.

No nosso tempo ler e interpretar os Lusíadas era uma seca de morrer. Mas eu tenho esperança que este pequeno artigo vos abra o apetite para uma leitura com outra forma de ver e sentir o poema

Até à proxima


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Uma resposta a “Génios”

  1. Avatar de Hélia Vilhena
    Hélia Vilhena

    Inspirador e estimulante para reler Camões.

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