Oceanografia Química–mais uma aula de Novembro de 2017

Oceanografia química

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Lançamento de garrafas oceanográficas para colecta de amostras de água em diversas profundidades.

Oceanografia química é o ramo da ciência oceanográfica que estuda os aspectos químicos dos oceanos e seus ambientes de transição (ex.: estuários). Ela descreve as características e propriedades químicas da água do mar, bem como quantifica elementos e compostos químicos envolvidos em diversos ciclos biogeoquímicos. Estuda também os processos químicos que ocorrem no oceano e os fluxos de materiais nas zonas de interação atmosfera-oceano, continente-oceano e sedimento-oceano, fornecendo subsídios para uma melhor compreensão do funcionamento da geosfera.

A oceanografia química pode ser subdividida em diversas disciplinas. Entre elas pode-se destacar a poluição marinha, que identifica e quantifica os efeitos negativos das ações antrópicas nos organismos marinhos. Outras disciplinas dentro da oceanografia química incluem geoquímica marinha, bioquímica marinha e físico-química marinha.[1]

Composição química da água do mar

A água do mar é composta por diferentes tipos de substâncias provenientes de diversas fontes. Em termos de tamanho, essas substâncias podem ser separadas em duas frações: dissolvida e particulada.[2] O limite entre essas fracções é operacional, pois depende do método de filtração da água do mar e da porosidade da membrana empregue no processo de separação. Assim, o limite varia conforme as necessidades do analista e da infraestrutura analítica existente. Tradicionalmente, para efeitos didácticos, o material dissolvido é definido como a fracção que passa, juntamente com a água, através de uma membrana com 0,45 µm de porosidade. Esta fracção inclui colóides, solutos (ex.: sais, nutrientes, metais) e gases existentes na água do mar. O material particulado é a fracção que fica retida na membrana de filtração. Em termos de composição química, esta fracção inclui partículas em suspensão inorgânicas (ex.: quartzo, feldspatos, argilo-minerais) e orgânicas (ex.: fitoplâncton, pelotas fecais, detritos de organismos mortos).[3]

Elementos maiores

Existem na água do mar mais de 70 elementos químicos dissolvidos. Porém, poucos deles ocorrem em concentração elevada (superior a 0,05 mM) para serem classificados como elementos maiores na água do mar. Tais elementos são: hidrogénio, oxigénio, cloro, sódio, enxofre, magnésio, cálcio, potássio, carbono, bromo, estrôncio, boro e flúor.[4] Os íons formados por estes elementos compõem a salinidade da água do mar. Embora a concentração de sais dissolvidos na água do mar varie geograficamente, a proporção entre os íons é praticamente a mesma em todos os mares e oceanos. Essa constância relativa dos íons é conhecida como princípio de Marcet.[1]

Elementos menores

Elementos menores são aqueles que ocorrem em baixas concentrações (0,05 a 50 μM) na água do mar. Eles chegam ao oceano a partir de diversas fontes, como deposição atmosférica, aporte fluvial, vulcanismo submarino, actividade humana e lixiviação continental. Esses elementos incluem: lítio, rubídio, molibdénio, silício, nitrogénio, fósforo e iodo.[4] De uma maneira geral, eles ocorrem em baixa concentração na água do mar porque estão envolvidos em ciclos biogeoquímicos. Além disso, apresentam baixo aporte no oceano e/ou grande taxa de remoção da coluna de água. Assim, a alta reactividade é umas das características mais importantes dos elementos menores na água do mar. Esta característica permite que eles sejam biologicamente concentrados pelos organismos ou ocorram na forma de diferentes espécies químicas na água do mar. Por exemplo, o nitrogénio pode estar presente na água do mar em diferentes formas como nitrato (NO3), nitrito (NO2), amônio (NH4+) e gás nitrogênio (N2).[4]

Elementos traço

Os elementos traço ocorrem em concentrações muito baixas (0,05 a 50 nM) na água do mar. Eles chegam ao oceano por diversas fontes, como aporte fluvial, aporte atmosférico, remobilização diagenética, actividades hidrotermais e fontes antrópicas. A maioria dos elementos traço no oceano são metais, incluindo manganês, ferro, cobre, níquel, cobalto e zinco. Ocorrem em concentrações baixas devido à sua remoção da coluna de água por meio de absorção em partículas, precipitação, incorporação biológica, oxirredução, volatilização e complexação.

Gases dissolvidos na água do mar

O oceano e a atmosfera estão interligados através da interface oceano-atmosfera. Cerca de 99% dos gases dissolvidos no oceano são provenientes da atmosfera. Assim, os gases mais abundantes no oceano são os mesmos que dominam a composição da atmosfera, ou seja, nitrogénio (N2), oxigénio (O2), argónio (Ar) e dióxido de carbono (CO2). Outras fontes de gases para o oceano são: fotossíntese, respiração, decomposição da matéria orgânica, fontes hidrotermais, actividade vulcânica submarina e decaimento radioativo.[4]

A concentração dos gases dissolvidos na água do mar pode ser alterada devido a processos físicos e biológicos. Os principais processos físicos que afectam a concentração de um gás na água do mar são: decaimento radioactivo, dissolução de bolhas de ar e mistura de parcelas de água com temperatura e salinidade diferentes. Os principais processos biológicos que ocorrem no oceano e podem afectar a concentração de um gás na água do mar são: fotossíntese, respiração, oxidação da matéria orgânica e processos bacterianos.[4]

Sistema carbonato

O sistema carbonato pode ser definido como as diversas reacções que envolvem as espécies químicas do ácido carbónico numa solução. No oceano, o sistema carbonato controla o fluxo de carbono inorgânico entre a atmosfera, a coluna de água e o sedimento marinho. Além disso, o sistema carbonato também é responsável pelo efeito tampão na água do mar, restringindo as variações de pH dentro uma faixa estreita. Todos esses factores fazem com que o sistema carbonato marinho seja de grande importância no estudo das mudanças climáticas globais. As reações químicas envolvidas no sistema carbonato marinho são:

CO2(g) ↔ CO2(aq)

CO2(aq) + H2O ↔ H2CO3

H2CO3 ↔ H+ + HCO3

HCO3 ↔ H+ + CO32-

Ca2+ + CO32- ↔ CaCO3(s)

A primeira reacção representa o fluxo de dióxido de carbono (CO2) na interface oceano-atmosfera. A segunda é a reacção do dióxido de carbono dissolvido no oceano com a molécula de água para formar ácido carbónico (H2CO3). A terceira e quarta reacções representam a dissociação do ácido carbónico para formar os íons bicarbonato (HCO3) e carbonato (CO32-), respectivamente. A quinta reacção é a combinação dos íons cálcio (Ca2+) e carbonato (CO32-) para formar carbonato de cálcio (CaCO3), que é um sólido. Este precipita na coluna de água e deposita-se no sedimento marinho. Quatro variáveis formam o sistema carbonato marinho: pH, alcalinidade total, carbono inorgânico total dissolvido e pressão parcial do dióxido de carbono na água (pCO2).[5] Como estas variáveis estão relacionadas entre si pelas reações do sistema carbonato, a partir da medida de duas delas é possível calcular as outras duas.

Micronutrientes

Micronutrientes são elementos químicos essenciais à vida marinha, mas que ocorrem em concentrações muito baixas na superfície do oceano. O fitoplâncton, que é a base da cadeia alimentar no oceano, precisa absorver micronutrientes dissolvidos na água do mar para realizar fotossíntese.[2] A falta desses micronutrientes tende a diminuir a produção primária, fazendo com que eles se tornem um factor limitante no crescimento do fitoplâncton marinho.[4] Os micronutrientes mais importantes na água do mar são nitrogénio, fósforo e silício.

Nitrogénio

O nitrogénio presente na água no mar pode estar na fracção dissolvida ou particulada. Nos oceanos, a fixação do nitrogénio é realizada principalmente por cianobactérias que convertem o nitrogénio molecular (N2) dissolvido na água para a forma de nitrogénio orgânico particulado, que é incorporado ao longo da cadeia alimentar e reciclado pela alça microbiana. Diversos processos mediados por microorganismos estão envolvidos na ciclagem do nitrogénio na coluna de água. O fitoplâncton absorve íons inorgânicos de nitrogénio (ex.: amônio e nitrato) e os incorpora em moléculas orgânicas (ex.: aminoácidos). A espécie de nitrogénio preferencialmente absorvida pelo fitoplâncton é o amónio devido ao menor custo energético.[7] A partir da decomposição da matéria orgânica ocorre a libertação da amónio na água do mar – um processo conhecido como amonificação. Devido ao ambiente marinho ser predominantemente oxidante, o amónio tende a ser convertido para nitrato. Essa transformação é denominada nitrificação.[4] Em ambientes deficientes em oxigénio, o nitrato tende a ser reduzido até nitrogénio molecular. Este processo é denominado desnitrificação, sendo importante em bacias com pouca renovação de água (que sofrem hipoxia) e sedimentos anóxicos.[4]

Nitrificação: NH4+ → NO2 → NO3

Desnitrificação: NO3 → NO2 → NO → N2O → N2

O perfil típico de distribuição vertical de nitrato na coluna de água oceânica apresenta baixa concentração na superfície devido à absorção desse nutriente pelo fitoplâncton. A partir da zona afótica, a concentração de nitrato começa a aumentar com o aumento da profundidade, apresentando um pico de máxima concentração na base da termoclina. Abaixo dela a concentração de nitrato diminui um pouco, mas permanece elevada e aproximadamente constante em direcção ao soalho oceânico. A concentração de nitrato no Oceano Pacífico profundo é maior do que no Oceano Atlântico profundo porque as águas daquele são mais antigas, tendo permitido maior acumulação de nitrato por processos de remineralização da matéria orgânica.[4]

Fósforo

O fósforo inorgânico dissolvido no oceano ocorre como diferentes espécies químicas originadas a partir da dissociação do ácido fosfórico. As reações de dissociação do ácido fosfórico são:

H3PO4 ↔ H+ + H2PO4

H2PO4 ↔ H+ + HPO42-

HPO42- ↔ H+ + PO43-

No pH da água do mar, essa especiação química ocorre nas seguintes proporções: 0,4% de H2PO4, 79,2% de HPO42- e 20,4% de PO43-.[4] Em seguida, os ânions derivados do ácido fosfórico tendem a sofrer complexação com catiões dissolvidos na água do mar conforme abaixo

Mg2+ + HPO42- ↔ MgHPO4

Ca2+ + PO43- ↔ CaPO4

A forma do fósforo inorgânico predominante na água do mar é o íon ortofosfato (HPO42-).[4] Os íons de fósforo são absorvidos pelo fitoplâncton e convertidos em matéria orgânica. Nessa forma orgânica o fósforo é assimilado por outros organismos marinhos ao longo da cadeia alimentar. Quando os organismos morrem, a sua matéria orgânica é degradada por bactérias e o fósforo é novamente convertido para as suas formas inorgânicas. O mesmo acontece com o fósforo orgânico proveniente da excreção dos animais.[1]Dependendo das condições ambientais, o fósforo inorgânico particulado no oceano também pode ser convertido para formas inorgânicas dissolvidas.

O perfil vertical típico da distribuição de fósforo na coluna de água oceânica é bastante parecido com o perfil vertical de nitrato. Na superfície, a concentração de fósforo inorgânico dissolvido é próxima de zero. Essa concentração começa a elevar-se com o aumento da profundidade a partir da zona afótica e apresenta um máximo na base da termoclina permanente (em torno de 1000 m de profundidade). No oceano profundo, a concentração de fósforo dissolvido é praticamente constante e um pouco menor do que aquela encontrada na base da termoclina. Assim como no caso do nitrato, a concentração de fósforo é maior no Pacífico profundo do que no Atlântico profundo.[4]

Silício

As principais formas de silício inorgânico dissolvido na água do mar são SiO2, Si(OH)4 e SiO(OH)3.A especiação química da sílica reativa envolve as seguintes reações:

SiO2 + 2H2O ↔ Si(OH)4

Si(OH)4 ↔ H+ + SiO(OH)3

A sílica biogênica é um constituinte essencial de estruturas sólidas excretadas por diatomáceas, radiolários e esponjas. Por exemplo, até 60% do material inorgânico da frústula de uma diatomácea é composto por SiO2.

O perfil vertical de silício inorgânico dissolvido na coluna de água oceânica é semelhante àqueles observados para nitrato e fosfato, com baixa concentração em superfície e aumento em direção ao fundo a partir da zona afótica. Entretanto, não se observa um pico de máxima concentração na base da termoclina permanente. Os níveis de silício dissolvido no oceano podem variar de aproximadamente 0 µM na superfície a 220 µM em águas profundas do Mar de Bering, localizado no norte do Oceano Pacífico. Também há elevados valores no Oceano Austral ao redor do continente antártico devido ao intemperismo glacial. Assim como no caso do nitrato e fosfato, as concentrações no oceano profundo são mais elevadas no Pacífico do que no Atlântico porque as massas de água do Pacífico são mais antigas

Produção primária e matéria orgânica

Produção primária é um termo usado para definir o mecanismo pelo qual organismos autotróficos produzem matéria orgânica pela fotossíntese e/ou quimiossíntese. Ela dá-se pela conversão de carbono inorgânico em matéria orgânica, libertando oxigénio como produto da reacção química. No oceano, a produção primária é dominada pelo fitoplâncton que contribui com mais de 90% da produção primária marinha.[4] Os principais factores que controlam a produção marinha do fitoplâncton no oceano são luminosidade, disponibilidade de nutrientes e predação por zooplâncton. Factores oceanográficos como ressurgência favorecem a produção primária marinha. O fitoplâncton ocupa a base da cadeia alimentar dos oceanos, desempenhando papel vital no fluxo de energia e nos ciclos biogeoquímicos de elementos como carbono, nitrogénio, fósforo, oxigénio e enxofre, além da produção de matéria orgânica.[9]

A matéria orgânica no oceano é constituída por organismos vivos, detritos de organismos mortos, excreções de animais e compostos orgânicos dissolvidos na água. Assim, ela ocorre no oceano nas fracções particulada e dissolvida. A matéria orgânica particulada (MOP) está presente nos organismos vivos na forma de carboidratos, lipídios, proteínas e ácidos nucleicos. No oceano profundo, os organismos vivos representam somente uma pequena fracção da matéria orgânica particulada, sendo a maior parte constituída por fragmentos orgânicos conhecidos como neve marinha. A matéria orgânica dissolvida (MOD) é aportada na água do mar através de processos de exsudação, excreção e decomposição de células mortas. Ela pode ser classificada em lábil e refractária. Os compostos orgânicos lábeis são muito reativos sob o ponto de vista bioquímico e tendem a ser degradados mais rapidamente (ex.: aminoácidos e oligossacarídeos). Já os compostos orgânicos refractários são de difícil degradação por serem biologicamente e quimicamente inertes, podendo apresentar tempo de residência na coluna de água superior ao tempo de mistura dos oceanos.[1]

Compilação concluída em Fevereiro de 2017

Jorge M. G. De Almeida Santos /DCM

As palavras a cor azul são links para a interpretação da palavra e o seu significado em link exterior a esta pagina.

JG


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